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Tuesday, February 26, 2008

Para pensar

"Mostrar a minha criatura, a minha esposa? Rasgar o véu com que cobri castamente a minha felicidade? Seria uma horrível prostituição! Há dez anos que vivo com esta mulher. Ela é minha, só minha. Ama-me. Não me sorriu ela a cada pincelada que lhe dei? Ela tem uma alma, a alma que lhe dei. Coraria se outros olhos que não os meus pousassem sobre ela. Dá-la a ver! Mas qual é o marido, o amante suficientemente vil para conduzir a sua mulher à desonra? Quando pintas um quadro para a corte, não pões nele toda a tua alma, não vendes aos fidalgos senão manequins coloridos. A minha pintura não é uma pintura, é um sentimento, uma paixão! Nascida no meu atelier, lá deve permanecer virgem, e de lá não pode sair senão vestida. A poesia e as mulheres não se entregam nuas senão aos seus amantes! Possuíremos nós as figuras de Rafael, a Angélica de Ariosto, a Beatriz de Dante? Não! Não vemos nelas senão formas! Pois bem! A obra que tenho lá em cima aferrolhada é uma excepção na nossa arte; não é uma tela, é uma mulher!"
Honoré de Balzac, A obra-prima desconhecida

Sobre a mutação das imagens

quando as imagens deixam de ser imagens e são como vida, matéria igual a nós - quando entre as imagens e o real se podem fazer transições e a imagem surge como modelo da realidade que partilha com esta a intimidade e a carne, o peso e a graça, a leveza da ascenção e a atracção pelo peso da terra. Só o real pode ser o museu da vida, só a vida apresenta a vida - por isso as obras de arte significativas não são arte, mas vida - ou, como diria Goethe, coisas mortas porém excelentes.
A zona da grande confusão: os prolongamentos da arte na vida e da vida na arte.
Pense-se na máquina diabólica de Morel - ou será a máquina redentora? A fotografia adensa os substitutos e as duplicações do real.

Para pensar:
"Estive a ler os papéis amarelos, Descubro que distinguir através de ausências - espaciais ou temporais - os meios de as superar, dá lugar a confusões. Seria preciso dizer, talvez: meios de alcance e meios de alcance e retenção. A telefonia, a televisão, o telefone, são, exclusivamente, de alcance; o cinematógrafo, a fotografia, o fonógrafo - verdadeiros arquivos - são de alcance e retenção.
Todos os aparelhos de suprir ausências são, pois, meios de alcance (antes de ser a fotografia ou o disco, é preciso tirá-lo, gravá-lo).
Seja como for, não é impossível que toda a ausência seja, em última análise, espacial ... Numa ou noutra parte hão-de estar, sem dúvida, a imagem, o contacto, a voz, dos que já não vivem (tudo se perde...).
Fica assim insinuada a esperança que investigo e pela qual hei-de ir à cave do museu, para olhar as máquinas.
Pensei dos que já não estão vivos: um dia pescadores de ondas hão-de reuni-los, de novo, no mundo. Tive ilusões deu próprio vir a alcançar alguma coisa. Inventar, talvez, um sistema de recomposição das presenças dos mortos. Quem sabe se não poderia ser o aparelho de Morel com um dispositivo que o impedisse de captar as ondas dos emissores vivos (mais acentuadas, sem dúvida).
A imortalidade poderá germinar em todas as almas, nas decompostas e nas actuais. Mas, ai!, os mortos mais recentes proporcionar-nos-ão um bosque remanescente tão denso como os mais antigos. Para formar um só homem já desconjuntado, com todos os seus elementos e sem deixar entrar nele qualquer elemento estranho, será necessário possui-se o paciente desejo de Ísis quando reconstruiu Osíris.
A conservação indefinida das almas em acção está garantida. Ou, melhor dizendo: estará completamente garantida no dia em que os homens entendam que, para defenderem o seu lugar na terra,lhes convém pregar e praticar o malthusianismo."
in Adolfo Bioy Casares, A Invenção de Morel (trad. Miguel Serras Pereira), Antígona

acerca da impossibilidade em escaparmos a nós próprios

Um mercador de Bagdad manda o seu escravo ao mercado comprar comida. Pouco tempo depois, o escravo regressa muito pálido, a tremer e muito assustado e diz ao seu senhor que no mercado foi interpelado por uma mulher, que reconheceu como sendo a morte, e que ela lhe tinha feito um gesto ameaçador.

Pede então ao seu senhor o cavalo mais veloz para fugir da morte para Samarra onde, acredita, a morte não o irá encontrar.
Como sempre tinha sido um escravo dedicado e leal, o senhor dá-lhe o seu cavalo mais veloz e ele parte.

O mercador dirige-se ao mercado e, para seu espanto, encontra a morte e pergunta-lhe: "Porque razão assustaste o meu escravo? Ele que sempre foi tão fiel e dedicado." A morte, igualmente espantada, responde: "Não era um gesto de ameaça, foi uma expressão de espanto. Fiquei atónita por vê-lo em Bagdad, pois tinha marcado um encontro com ele esta noite em Samarra."


cf. John O'Hara, Appointment in Samarra, 1934
Somerset Maugham
Existem outras versões deste conto: Jacques Deval, Ce soir à Samarconde, Acte 1